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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A referência do respeito

A ideia de respeito precisa ser desenvolvida, no que tange aos processos de evolução pessoal. Para começo de conversa, buscar uma referência do sentido da palavra exige uma postura de consciência coletiva. De tal forma e maneira, que é preciso esquecer essas variáveis individuais a que caminhamos nesses tempos modernos.
Quando olhamos para o nosso umbigo, dificilmente entenderemos o real significado do conceito de respeitar às dimensões externas que nos chegam. Por sua etimologia, a palavra - que encontra origem no latim ("respectus", particípio passado do verbo "respicere") e significa olhar outra vez - pressupõe um rumo de entendimento que não vai se esgotar ao primeiro olhar. É preciso olhar outra vez... e, se precisar, uma outra vez. Nesse re-olhar, é esperado que o entendimento fique mais claro, ou que saibamos enxergar de outra maneira, acerca daquilo que nos pareceu enevoado.
Respeitar demanda um processo de reconsiderações, que passa, necessariamente, pela revisão daquilo que entendo e sei. E tudo começa pelo respeito - respeito ao espaço físico; respeito aos bens públicos; respeito ao outro e a toda a sua manancial de variáveis: preferências esportivas, sexuais, religiosas, formação, condição social etc.
Quando percebo que o outro é dotado de saberes e de significados próprios em sua constituição, deve instalar-se em mim o pressuposto do tal respeito. Ora, eu o respeito.
Ter respeito, obviamente, não significa concordar com ou aceitar, passivamente, o que está por aí. A referência encaminha minhas atitudes e ações para as proposições ideológicas tão somente. Em nome do respeito, eu entendo a ideologia do outro, mas não preciso envolver-me com suas crenças até que elas façam significado para mim, a partir de um conjunto de reflexões lógicas e racionais. E quando acontecer de existir o significado, apenas devo entender que houve uma mudança do meu ponto de vista (olhar outra vez!...), e não que sou detentor de uma verdade... Aliás, as posições ideológicas nunca representam um conceito de verdade. As posições ideológicas querem dizer uma tomada de sentido frente a um posicionamento qualquer, balizada no princípio da significação que aquela tomada de sentido tem para mim. Não há verdade aqui. Ora, se não há verdade, não faz sentido conflitos em nome dessa tomada de sentido.
Bom, isso tem um nome, na verdade. Tolerância. Nesse caminho de reflexão, o respeito é a base da tolerância.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Anotações - A minha vida é diferente da sua

No ônibus, os amigos conversavam. Não prestei atenção nos meandros da conversa, mas sei que ela se concluiu com a frase que dá título a essa publicação: "A minha vida é diferente da sua.". Talvez estivessem falando dos comportamentos que devemos ter frente a uma situação qualquer e um deles, possivelmente, pensou em padronizar as referências, ao que, imagino, o outro saiu-se com essa: "A minha vida é diferente da sua".
E não há certeza mais contundente. Cada indivíduo comporta-se de forma personalíssima frente a qualquer variável. A assertiva vale para entendermos um pouco sobre os relacionamentos vários: cada sujeito vai posicionar-se segundo suas vivências e experiências, de maneira absolutamente individual e não padronizada ou pasteurizada.
A insistência justifica-se pela maneira como nos portamos diante das diferenças. Na maior parte das vezes, queremos que as pessoas concordem com nossos argumentos e posicionamentos, sob pena de instaurarmos o fim da amizade e do querer bem. É o princípio da intolerância.
Ora, cada vida é diferente. Natural que cada vida vai valer-se de suas experiências para julgar ou posicionar-se diante de algum embate, tenha ele o tamanho que tiver. Em alguns casos, pode até haver concordância - mas não o será por causa da beleza dos nossos olhos; a concordância deve ser balizada pelas vivências que o indivíduo experimentou e em cujo propósito residem as opiniões afins.
Em outros casos, podem acontecer discordâncias - mas não o será por conflitos desnecessários; a mesma experiência de vida pode suscitar discrepâncias de opiniões. Tudo normal.
E até porque "a minha vida é diferente da sua", pode até acontecer que, nas suas discussões, eu não precise ter opinião formada. Nesse caso, minha quietude é pura e simplesmente por razão de não ter o que dizer.