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terça-feira, 31 de março de 2015

Anotações - Fernando Pessoa e a Determinação

Há um poema do Fernando Pessoa sobre o qual dizemos dois versos, que já se tornaram icônicos ("Valeu a pena? / Tudo vale a pena se a alma não é pequena..."). Penso que seria interessante darmos uma olhada no poema inteiro - ele é curto, veja abaixo. Na minha opinião, em relação aos temas aqui apresentados, sobre evolução pessoal e desenvolvimento humano, seus versos são pertinentes à reflexão sobre a determinação e a busca de evolução pessoal.
Nesse processo de crescimento - intelectual, profissional, social etc - havemos de sacrificar algo, o que vai nos exigir bastante coragem nos caminhos que surgirem. No poema, que retrata as aventuras dos portugueses antigos em relação às conquistas que se deram pelo mar, temos ali simbolizada essa questão de sacrifício e de coragem. Vejam, lá, que há uma referência - que se repete na primeira estrofe - a algumas perdas em nome das conquistas: o sal do mar são as lágrimas choradas, sobretudo das mães que se despediam de seus filhos; orações em vão representaram as perdas; e noivas perderam seus maridos. A ideia de conquista fica bem objetiva - tudo isso aconteceu para que fosse possível apropriar-se das fronteiras que o mar lhes possibilitava.
E vem a pergunta nos versos que bem conhecemos. Se temos dúvida sobre se valeu a pena tamanho sacrifício, a resposta está na dimensão do que queremos alcançar - se minha alma é pequena, não alcanço a dimensão positiva do que se pretende. Mas não basta ter a alma grande, é preciso entender que vai haver uma certa dose de sacrifício. Os navegantes antigos sabiam bem do temor que o Cabo do Bojador lhes despertava - passar por ele exigia muita disposição e coragem para enfrentar os monstros que se imaginava habitarem por ali. Para atravessar o Cabo, era preciso, primeiro, passar para além de suas dores e seus temores. O que exigia muita determinação. Determinação e um senso de o que se descortinaria era a amplidão semelhante ao reflexo do céu nas águas do mar. Guardadas as proporções de o que enfrentaram os navegantes de tempos antigos, é a mesma imagem de quando buscamos nos desenvolver!



MAR PORTUGUEZ

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram.
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa, Mensagem.

segunda-feira, 30 de março de 2015

O Desenvolvimento Pessoal - A Responsabilidade da Família

No processo de desenvolvimento do ser humano, ao lado da importância da Escola e, obviamente, até mesmo antes dela, a responsabilidade da família está relacionada à criação de aspectos comportamentais e ferramentas que acompanharão a pessoa pela vida afora.
A família - aí incluídos pais e quaisquer adultos do círculo familiar com os quais as crianças se envolvem - será a base de formação de apreensão e desenvolvimento das variáveis de usos e costumes, além dos pressupostos de moral e ética, de cunho social ou religioso, que consolidarão a personalidade do ser humano. Nesse sentido, a escolha posterior da Escola - ambiente em que serão trabalhadas as variáveis de desenvolvimento acadêmico (intelectual, científico e de sociabilização) - deve, na medida do possível, acompanhar os aspectos que se relacionam com as vivências familiares.
É preciso que a família entenda, sempre que puder, as diferenças dos aspectos que se relacionam com as responsabilidades da escola e as de sua incumbência. Cabe à Escola oferecer ambiente propício para o desenvolvimento acadêmico, intelectual, crítico e criativo; à Família, cabe o acompanhamento constante das formações moral e ética, que prepararão o sujeito para os diversos relacionamentos nos variados ambientes que serão frequentados.
Após o ingresso da criança no ambiente escolar, a Família se prende a um outro comprometimento, o de acompanhar esse processo de desenvolvimento escolar, pelo menos na dimensão da Educação Básica - que aqui no Brasil compreende a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio -. Esse acompanhamento desdobra-se em diversos afazeres: verificação de aproveitamento escolar, auxílio nas lições de casa, participação positiva em reuniões, conhecimento das situações do ambiente escolar, relacionamento harmônico com os principais atores pedagógicos (direção, coordenação e professores), envolvimento nas atividades extra-classe e outras que vão surgindo pelos caminhos.
No âmbito dos ambientes familiares, outro nível de responsabilidade é preciso ser pensado. Grande parte das crianças desenvolvem-se positivamente pelas relações modelares (os pais e os adultos mais próximos são espelhos para as atitudes comportamentais das crianças), além de uma necessidade das relações afetivas mais consolidadas (principalmente para as crianças pequenas, mas que se estendem a qualquer idade).
Quando se comprometem com sua parcela de responsabilidade, as famílias percebem que há um crescente positivo e tranquilo no processo de desenvolvimento do ser humano.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Resenha - O filme "Peixe Grande" e a questão do simbólico

Lembro-me do filme Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas (Direção de Tim Burton, Columbia Pictures, 2003) quando penso na importância do simbólico na formação pessoal. Se não viu o filme, ou não se lembra dele, e quiser dar uma olhada no trailer, clique aqui.
O filme narra a reaproximação entre um filho e seu pai, de quem ouviu as mais fantásticas histórias sobre fatos marcantes de suas vidas. O problema é que este filho, no atual momento em que está, acredita que todas aquelas histórias não passaram de fantasias descabidas e pretende comprovar quanto do que seu pai lhe contou é realmente fato.
Viver a fantasia que advém dos universos fantásticos permite à criança uma experimentação saudável de referências do seu desenvolvimento. As professoras das séries iniciais e as de educação infantil conhecem muito bem essa variável, ao estruturarem seus planejamentos de trabalho fundamentados em princípios lúdicos.
O universo simbólico - e todas evoluções em seu espaço - permite à criança um jogo de experimentação altamente necessário para que seu desenvolvimento possa ser fortalecido o suficiente para, que dali, resulte um adulto melhor. No filme, o filho, que está prestes a ser pai, vai perceber que o confronto do que é real e do que é fantasioso, sobre as histórias de seu pai, não é o mais importante. O que vai importar, mesmo, é como aquilo tudo transformou-o na pessoa que ele é.

terça-feira, 24 de março de 2015

Resenha - Para ensinar, é preciso fundamento!

Recentemente, fiz um curso sobre uma das técnicas de encadernação e o professor fez um comentário que considerei fantástico para essa reflexão de hoje. Ao dizer sobre alguns movimentos particulares de parte das pessoas em querer ensinar algo que ainda não aprenderam muito bem - e, lamentavelmente, como tem gente assim!... -, ele disse a frase que é título da resenha de hoje: "Para ensinar, é preciso fundamento.". Gostei muito.
Já há algum tempo, percebo que a quantidade de especialistas em alguma coisa cresceu muito, explicitando suas referências nos diversos currículos que se veem por aí. Tem sempre muita gente, especialista nas mais diversas áreas do conhecimento. Mas até aí, tudo bem, não vejo muito problema. As coisas ficam tristes, na verdade, quando esses especialistas resolvem desenvolver uma atividade de formação, propondo-se a ensinarem o seu objeto, em que é expert.
Quando é honesto, outra vez, tudo bem. É até bom - e louvável - compartilhar conhecimentos e colaborar no desenvolvimento de outras pessoas. Mas não se pode esquecer: para ensinar, é preciso saber! E saber aqui, aproveitando-se do termo "fundamento" do meu professor de encadernação, engloba um conjunto de experiências e vivências que sedimentam o objeto de seu estudo. Alguém que vai ensinar alguma coisa, necessariamente, deve passar pelo processo lúdico de experimentação de seu conhecimento, em que, como em um laboratório, processou, incansavelmente, um sem-número de tentativas, acertos e erros, sobre os quais elaborou conscientes reflexões. E sobre os quais testou hipóteses, construiu e desconstruiu teorias e internalizou saberes. E, sobretudo, entende que o fundamental, nos processos de ensino e aprendizagem, é estar sempre com a mente aberta para novos conhecimentos sobre sua especialidade.

segunda-feira, 23 de março de 2015

O Desenvolvimento Pessoal - A Responsabilidade da Escola

É preciso que entendamos ser o processo de desenvolvimento por que temos de passar um conjunto de ações que efetivamos em nossa vida. E esse processo recebe, voluntariamente ou não, a ação de diversas instâncias. Desde as familiares, passando pelas escolares, pelas profissionais e por aí vai.
Algumas dessas instâncias vão ter importância fundamental em nossa evolução, como as familiares e as escolares. As familiares vão nos municiar dos aspectos morais e de valores, que nos acompanharão pelas diversas relações afora.  As escolares serão aquelas que devem representar os alicerces científicos para as tomadas de decisões.  Cada uma delas terá relevância, às vezes primordial, em nosso desenvolvimento. E cada uma delas, dada a complexidade de suas variáveis, descortina-se em outras vertentes, a serem refletidas. Trataremos, nesta primeira explanação, de explorar a responsabilidade da Escola no desenvolvimento das pessoas. Antes, é preciso que se diga que essa série de publicações – ainda vamos falar da responsabilidade da família e a do aluno na referência de evolução pessoal – tem o propósito de compartilhar uma reflexão sobre a ideia de desenvolvimento pessoal e como algumas instâncias têm papel importante nesse processo. Em alguns momentos, é preciso que enxerguemos a explanação como um pressuposto ideal, para daí elaborarmos uma consciência de o quanto estamos dessa referência.
A Escola é um dos referentes de maior importância em nossa evolução. E penso que sua responsabilidade está diretamente relacionada, não só com as pessoas que por ali transitam, mas também com sua estrutura física. O ambiente em que está inserida a Escola deve ser acolhedor, limpo, organizado, estimulante e motivador, para espelhar no aluno as mesmas características de organização e motivação.
A Escola deve contar com uma Direção e Coordenação sintonizadas com um modelo pedagógico que acreditem eficiente e positivo e, em torno deste modelo, direcionar suas propostas de trabalho. E que esta Direção e Coordenação propiciem uma referência de harmonia diante das situações de conflitos, em quaisquer das relações que se verificarem em seu ambiente. E que as famílias dos alunos sejam plenamente acolhidas e estimuladas, positivamente, na participação escolar.
Quando a realidade da Escola permitir, ela deve contar com um sistema de seleção de professores que lhe permita contar com os melhores, haja vista a consonância com a definição do modelo pedagógico estabelecido. E, em sendo assim, deve, também, propiciar aos professores as mesmas referências de desenvolvimento que as dos alunos.
Cabe aos professores a preocupação de que precisam estar atualizados, não só em relação ao seu conteúdo, mas também nas questões de leitura de mundo que digam respeito aos aspectos gerais e à realidade de seu entorno. É assim que ele vai propiciar ao aluno uma visão mais apurada e consistente de seus propósitos de desenvolvimento. O professor deve preocupar-se, constantemente, com sua formação, de maneira contínua e eficiente; deve ser um estudioso aplicado dos modelos pedagógicos e entender as referências de aprendizagens, para contribuir na mediação da evolução dos alunos.
No desenvolvimento do ser humano, as referências de letramento e de aprendizagens científicas – aspectos elaborados pela Escola – constituirão um manancial de formações a sedimentarem todos os processos de evolução pessoal.

  
(Abordaremos, ainda, em publicações futuras, a responsabilidade da família e a do aluno no processo de desenvolvimento pessoal. Aguardem.).

quinta-feira, 19 de março de 2015

Resenha - A Sensibilidade

Discute-se, muito, em Educação, o pressuposto da sensibilidade no desenvolvimento de um trabalho mais apurado nos espaços pedagógicos. Concordo. Mas é necessário trazer o tema para as referências científicas, para não deixá-lo no âmbito das emoções e afetividades, apenas. Claro que emoção e afeto ajudam, mas a sensibilidade, como emoção e afeto, são constituintes da nossa formação humana. Somos razão e emoção, em uma espiral - harmônica ou não - de realizações.
Acontece que em Educação lidamos com o ser humano em sua variável de formação - pessoal, intelectual e social. Nessa lida, precisamos nos revestir, continuamente, das variáveis da sensibilidade para o entendimento mais amplo dessas variáveis.
É no plano do que sentimos - e de como os nossos sentimentos estão despertos ao que nos cerca - que podemos melhor fazer a leitura das situações: leitura do ambiente, das referências familiares, dos conceitos profissionais, das metodologias a serem abordadas, dos casos específicos, do contexto familiar e social etc. Dada a complexidade do que o meu trabalho exige, é no âmbito da sensibilidade que eu vou poder guiar a racionalidade das minhas tomadas de decisões.

terça-feira, 17 de março de 2015

Resenha - Tolerância

Minha amiga, Elizabeth O, uma cantora de primeira, viu, na semana passada, minha mensagem de reflexão com a frase de Paulo Freire sobre tolerância (a questão de conviver e aprender com o diferente e respeitá-lo). Mas não se contentou e disse-me que faltava algo. Vou tentar, então, desenvolver um pouco do meu pensamento sobre a questão da tolerância.
Um dos maiores males da humanidade, em todos os tempos, é, justamente, o princípio da intolerância - não sabemos conviver com quem pensa diferente dos nossos princípios (futebolísticos, políticos, culturais, de orientação sexual, religiosos etc.). Parece-nos, a princípio, que quem diferencia dos nossos pensamentos não merece nossa consideração e respeito, muito menos a nossa tolerância. Essa tem sido a fundamentação de muitas guerras e de muitos conflitos ideológicos que resvalam para a violência.
A tolerância, dizia Paulo Freire na frase que escolhi, é uma virtude. A que nos ensina, preciosamente, a entender essa diferença como elemento de colaboração para o meu crescimento. Sim, é no processo de convivência com as diferenças que aprendo os elementos básicos de respeito e de multiplicidade de aspectos que constituem os seres humanos. Nessa multiplicidade, não é preciso atribuirmos juízo de valor (um aspecto não é mais importante que outro, por exemplo), na medida em que cada aspecto dessa diversidade vai colaborar para o entendimento da importância da diversidade. E vai colaborar para a constituição de um ambiente macro, no qual as opiniões, as preferências, as crenças etc vão desenhar um corpo maior, pleno de referências variadas e significativas para o nosso desenvolvimento.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A questão do compromisso / desejo do Educador

Não sei se você tem esse dado, mas sabia que é cada vez mais crescente, em Educação, a falta de envolvimento com a diversidade de fatores que se relacionam no processo pedagógico? Poucos são os que se comprometem, integralmente, com as questões amplas e elaboradas advindas dos espaços educacionais. No máximo, ministram-se as aulas, preenchem-se as rotinas burocráticas, participa-se de uma ou outra reunião de pais e está muito bom. 
Meu amigo, a questão do compromisso com a Educação é coisa séria. Quando se estabelecem princípios para nortearem a prática profissional, praticamente consolida-se um pacto de entrega para a garantia e manutenção do que se estabeleceu. Não pode ser uma prática do "mais ou menos".
Entretanto, o que se vê por aí pode ser resumido a duas atitudes: desconhece-se o estabelecimento de princípios ou até eles existem, mas com uma prática contraditória ao que se define como base de trabalho. É o samba do educador doido, com suas consequências negativas sobre a formação dos alunos.
Até reconheço que, mais uma vez, há um dado cultural relevante aqui. Vivemos a sociedade da inversão de valores. O profissional compromissado, que se esforça para analisar criticamente suas posturas, quase sempre é alvo de insinuações pejorativas. Se o sujeito não estiver convicto de suas crenças, vai se achar na contramão e tenderá a afrouxar seus princípios, para não ser excluído do círculo de amizade.
O fenômeno da inversão de valores, no campo da moral e da ética, pode até explicar muito do que a nossa vã filosofia não alcança, mas jamais pode substituir a consciência do fazer bem feito. E não há aquele que, em confronto com sua consciência, vá depois dizer que não sabia. A consciência ainda é o fiel da balança, a lhe despertar para o que é adequado ou inadequado. É claro que vamos esbarrar aqui em uma referência de subjetividade, na medida em que falar de consciência pressupõe o quanto de disposição você está propenso a investir para reformular seus propósitos. Bom, eu tenho que acreditar que há no mínimo uma vontade de escutar aquela voz que vai ressoar aí nos seus ouvidos. Se não for assim, nem vale a pena continuar. 
Pensei em Rilke (Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke), no seu questionamento ao aspirante a poeta: “Observe se esta necessidade (a de escrever) tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: ‘Morreria, se não me fosse permitido escrever?’...” Guardadas as proporções dramáticas, a questão se coloca comparativamente: “O que o move a educar?”; “quanto de compromisso você coloca nesse movimento?”; “estaria fadado às amargas decepções se não lhe dessem condições satisfatórias de alcançar esse objetivo?”; “quanto você coloca de força e coragem para vencer as contrariedades a essa intenção de movimento?”.
O termo “necessidade”, lá em cima, representa o desejo embutido no propósito; não basta ter vontade, é preciso necessitar. Faz parecer que é algo fisiológico, sem o qual não se vive tranquilamente. Então, é possível simplificar todas aquelas questões lançadas acima: “Você deseja, ou desejou, ser educador? Sente necessidade disso?”. Pensei até em parafrasear o Rilke.
Quer ser Educador? Olha, meu amigo, escute antes o seu coração – muito do que você vai fazer, é ele quem vai ditar seus movimentos. Tem certeza de que quer contribuir para a mudança das realidades que tornaram o mundo como ele está? Não pense que vai haver romantismo nas suas ações; tudo será um apanhado de estratégias sérias e trabalhosas, cuidadosamente pensadas e incansavelmente estudadas, para apoiar seus movimentos, sua prática.
Invariavelmente, as instituições tratarão de arrumar meios para desestabilizá-lo (incluídas aí a Escola, os Alunos, a Família dos alunos, a Sociedade). É quando vai falar mais alto o desejo, a necessidade. Quanto mais desejo houver no seu empenho, mais energia você terá para se contrapor a elas.
É a definição de quanto de vontade você tem embutido no seu propósito que vai determinar o quanto de universo a ser descortinado você tem propiciado a seus alunos. Explico melhor. Sempre me preocupei não só com a referência de o quanto os alunos tenham aprendido de determinado ponto, mas com quanta perspectiva eles saíam das aulas. Com quantos sonhos e de que instrumentos se valeriam para buscarem a realização daqueles sonhos.
Pense, também, que, justamente por isso, deve fazer parte do desejo a sua disponibilidade em estudar, em aperfeiçoar sua formação. É preciso que você tenha um compromisso muito grande com o seu aperfeiçoamento. Outro dia, li alguma coisa sobre o fato de os professores não se sentirem muito bem em estudar, porque feriria sua identidade de “ensinante”. Espero que você não compartilhe desse ponto de vista. O aperfeiçoamento da formação intelectual e prática do professor deve ser uma constante na relação com o compromisso. É compromissado aquele que investe na sua formação profissional, porque quer que o seu trabalho tenha destaque. Em tendo destaque o trabalho, sua ação será muito mais significativa. Bom, parece fórmula pronta, mas espero que você tome isso como reflexão para a ampliação de seu horizonte e dos seus alunos.
Quando penso em Educação, conceitualmente, como algo que se processa balizado pela intenção de promover o desenvolvimento do ser humano, não consigo dissociar da necessidade de estabelecermos essa ideia de desejarmos, de fato, algo grandioso (para nós e para nossos alunos). E, sobretudo, que aprendamos a sair do plano metafísico, abstrato, a que nos remete, erroneamente, o termo “desejo” e orná-lo com aparatos científicos. Voltemos, assim, às perguntas já expostas aí atrás – você deve lembrar: “o que o move a educar?” etc. -, para que delas, e das respostas francas e objetivas que dermos a elas, façamos um verdadeiro plano de análise, com o qual consigamos identificar, logicamente, toda a dimensão do que deveria ser o nosso empenho em uma proposta de trabalho pedagógico mais propositiva.


quinta-feira, 12 de março de 2015

Resenha - Consciência Política

Atravessamos, em nosso país, um momento delicado de desagrado às instituições políticas. Notícias impressionantes de subornos ou de corrupções, envolvendo instâncias políticas, em descalabros sem fim refletiram na confiança que, talvez, tivéssemos nestas instituições. É preciso aproveitar o momento, valendo-se do conceito de "demanda pedagógica", exposto dias atrás.
A Escola pode - e, na minha opinião, deve - desenvolver trabalhos, que tangenciem o currículo já determinado, a contemplarem exercícios de consciência política. É preciso buscar a formação de fato de cidadãos críticos a essa realidade absurda. Para isso, a consciência é a maior variável de desenvolvimento que se possa apresentar. Consciência do ideal político, consciência da questão de servir a causa pública, consciência de um desenvolvimento das ideias no plano coletivo e que visem ao bem de uma coletividade.
É um trabalho que vai exigir - e muito - de todos os envolvidos no espaço pedagógico. Precisamos mudar os comportamentos - os nossos e os alheios; precisamos ampliar nossa visão e leitura de mundo; precisamos intensificar os conceitos de ética e moral; precisamos aprender a reivindicar os direitos; precisamos aprender a ouvir e a respeitar o outro... 
A Escola pode ser o berço de formação de uma nova mentalidade que vá se constituir na transformação a que tanto almejamos.

terça-feira, 10 de março de 2015

Resenha - Indisciplina

Recentemente, eu li algo sobre o problema da indisciplina de comprometer o tempo do trabalho do professor. Já há algum tempo, essa questão da indisciplina desestrutura, sobremaneira, o fazer pedagógico. E a indisciplina assume várias facetas, desde as variáveis mais simples constituídas pelas farras infantis, até as de cunho mais agressivos e violentos por parte dos alunos.
Não é questão simples. É preciso haver um trabalho integrado e coletivo por parte do corpo da Escola - direção, coordenação, professores e demais funcionários. Na minha opinião, a primeira coisa a se fazer é que esse corpo assuma conceitos e regras coletivos a propósito da indisciplina. Não há fórmula pronta, mas, quando a Escola posiciona-se de forma integrada frente à indisciplina, torna-se mais fácil o trabalho com a questão. Um dos maiores entraves a esse propósito de integração é a criação de um espaço de conflito entre direção, coordenação e professores, em que uma das instâncias "sabota" algum tipo de orientação ou de determinação, favorecendo um espaço de caos. Nesse espaço de caos, fica difícil estabelecer sensos de organização - entre a direção e professores; entre os próprios professores; entre os alunos. A desorganização resultante é um ambiente propício para o estabelecimento da indisciplina.
Outro fator que observo na questão da indisciplina é a extensão dessa variável de integração a ser levada às relações com as famílias dos alunos. É preciso envolver, direta e objetivamente, os pais ou os responsáveis dos alunos com as questões emergentes do espaço pedagógico - desde as questões mais simples, como as de aproveitamento, até as mais difíceis de abordar, como são os casos de indisciplinas. Aqui, é preciso conscientizar as famílias que, ainda que elas insistam no fato de os seus filhos serem bonzinhos, que há uma larga diferença entre ser filho e ser aluno. A ideia é estender, de forma racional, aos pais e responsáveis, quando isso acontecer, a responsabilidade dos filhos neste ou naquele evento que desestruturou todo um trabalho. A parceria, elaborada de forma racional, com os pais e responsáveis, tem se revelado um grande aliado na resolução de alguns problemas de indisciplina.
O trabalho coletivo e integrado, seja na própria Escola ou em parceria com as famílias - pode constituir-se uma eficiente estratégia de diminuir os casos de indisciplina, que incomodam e atrasam as ações pedagógicas.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Demanda Pedagógica

A ideia de “Demanda Pedagógica” é um conceito interessante: tudo aquilo que desencadear a necessidade de uma ação nos espaços educacionais, seja ela diferenciada ou não, seja ela imediata ou não, representará uma demanda pedagógica. O movimento de busca de encaminhamentos para as mais diversas situações representa o tal conceito dessa demanda. Quer dizer, sua atitude cria uma referência de ações para entender as situações que enfrenta. A partir do movimento causado por essa demanda, estudam-se alternativas e/ou soluções para que haja o enfrentamento de um problema.
A remissão a uma ideia grandiosa de busca aproxima-se aqui com o conceito de “demanda pedagógica”. Decerto, você deve defrontar-se, em seu trabalho, com determinados sinais que deverão desencadear uma espécie de aventura épica à busca de respostas ou elementos que visem oferecer instrumentos de fortalecimento ao seu trabalho e de resolução a alguns problemas. A questão é que nem sempre esses sinais são percebidos.
Já escutei muito, nos lugares em que trabalhei: “... eu não ganho para isso”, denotando estranhamento a algum movimento de ação considerada injustificada simplesmente porque, segundo um critério considerado prático, não traria nenhum dividendo real a quem o realizasse. Quer dizer, segundo esse raciocínio, eu preciso ganhar alguma coisa (entenda-se ganho financeiro) para encaminhar uma ação que, além de julgar essencial naquele momento, estaria respaldada na variável profissional do meu trabalho.
Ora, você pode até defender o pensamento de que não se faz Educação com mero idealismo, mas há de concordar, espero, que, na ação educativa, o conceito de emergencial pede que o encaminhamento de soluções alternativas deva ser rápido, em se tratando de estar atrelado ao processo de desenvolvimento do ser humano. A minha ideia de demanda pedagógica está intimamente relacionada com a habilidade do educador de ter uma visão superior ao individualismo do aspecto técnico e burocrático do trabalho, para poder enxergar, na postura e atitudes dos alunos, a necessidade de uma intervenção que venha a propor ações alternativas, com o intento de dimensionar a tal intervenção como fator essencial no desenvolvimento daqueles alunos. Assim, todos ganham com isso.
É bem certo que o nosso sistema de ensino em quase nada contribui para possibilitar ao professor o encaminhamento de ações diferenciadas, mas acredito que o que se faz, nos espaços escolares, possa converter-se em um redimensionamento mais positivo do trabalho pedagógico. Até porque, a bem da verdade, é em nome dessa justificativa que pouco se tem feito pela busca de melhorias no trabalho pedagógico. As acomodações surgem e nos colocam a um bom distanciamento daquilo a que o nosso aluno está tentando nos dizer. Quando perdermos o ranço burocrático e direcionarmos nosso esforço para a tradução do que os alunos e o espaço estão tentando nos dizer – decerto, haverá muita coisa nas entrelinhas -, é que acredito estarmos fazendo Educação.
Partir para o espaço da busca, em que nos vemos desprovidos da segurança e bem estar a que nos remete a “zona de conforto” da comodidade, parece-me o primeiro grande passo para vivermos em constante vigilância daquilo que merecerá uma demanda.
E aí é ser observador... e ser destemido, sobretudo. Lembre-se, apenas, de que o objetivo principal do nosso trabalho é contribuir para a formação do ser humano. Esse que, nas comunicações mais sutis – ou não – do espaço pedagógico pede-nos ajuda para o delineamento do seu desenvolver.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Resenha - Escritores da Liberdade

O filme Escritores da Liberdade (Paramount Pictures, 2006) é um desses filmes de professores que vale a pena conhecer. No filme, a professora Erin Grunwel, interpretada por Hilary Swank, precisa vencer a barreira da agressividade e violência com que seus alunos estão acostumados e em que estão submersos, para provocar uma transformação de âmbito social, cultural e pedagógico. (Se quiser dar uma olhada no trailer do filme, se ainda não assistiu a ele, clique aqui.).
A professora Grunwel vale-se de um idealismo e determinação invejáveis. Como o filme é fundamentado em uma história real, não vale pensar que tudo não se passa de um melodrama inventado por um roteirista criativo. Não é. A verdadeira professora Grunwel enfrentou mesmo aqueles problemas e realizou mesmo aquilo que se vê no filme. Ao questionar a realidade de seus alunos e buscar meios para interferir naquele caos, a professora coloca-se na posição fundamental de buscar resolver o que se vê. Às vezes, o sistema não ajudava; em outras, faltava-lhe o aparato de formação; em outros momentos, parecia que tudo ia por água abaixo. Ela poderia desistir de tudo, mas, municiada de o que Paulo Freire preconizou em seus discursos - principalmente da amorosidade e da coragem -, a professora do filme vai vencendo cada um de seus dissabores, em nome da necessidade de provocar uma transformação positiva em seus alunos.
Que o simbolismo a ser vertido pelas ações de resistência e de persistência da professora do filme possa nos inspirar nos momentos de dificuldade em nossos caminhos. 

terça-feira, 3 de março de 2015

Resenha - Água

O problema da água (para mais ou para menos), que tem acontecido em dimensões mais significativas em nosso país, nestes tempos, é um verdadeiro combustível para trabalhos pedagógicos de variados conceitos.
Os espaços pedagógicos devem ser uma instância que acolha, de forma relevada, esse conteúdo. Aliás, já há algum tempo, o problema da água tem se mostrado altamente relevante para transformar os conteúdos curriculares. Ora, era a seca, principalmente nas regiões norte e nordeste do país; ora, as enchentes, principalmente na região sudeste. Desta vez, algumas inversões nesse quadro acentuaram o problema.
A utilização da água de forma errada e/ou o descuido com alguns de seus referentes (acúmulo de lixo nas entradas de bueiros, construções irregulares nas áreas de mananciais etc.) fazem e fizeram o sofrimento de muita gente.
É preciso transformar as discussões sobre esse tema em trabalhos consistentes e contínuos nas escolas. Desde as reflexões sobre o papel do cidadão nas variáveis de economia na utilização do recurso (banhos mais rápidos, consciência nos diversos graus de utilização, a questão do desperdício etc.), até as de cunho social e político, em que se abordem os tópicos do papel do Estado e das instituições na mesma problemática.
Motivar e elaborar as discussões e debates sobre temas emergentes na vida dos estudantes, como é esse da água, é um dos papéis fundamentais das escolas no processo de desenvolvimento de seus alunos.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Ler e Escrever

Ler e escrever, que se complementam indiscutivelmente, já há algum tempo têm se constituído no terror de quase todas as pessoas. Nas escolas, nos meios acadêmicos universitários, nas empresas, no dia a dia, muitos sofrem com a tarefa de produzir um texto, por mais simples que seja, e com a falta de intimidade com as leituras. Problemas de formação e deficiências de estímulo e motivação afastaram-nos da leitura e de um trabalho mais eficiente de produção de textos. Resultado imediato: suores frios e nervosismo diante de um papel branco, em que se devem apontar escritos quase sempre necessários; e apatia completa, senão ojeriza, às leituras corriqueiras.
No que diz respeito aos aspectos de desenvolvimento pessoal, quanto mais houver de intimidade com os mecanismos de leitura e de escrita, tanto mais aumentam as possibilidades de sucesso nas empreitadas. É através do que se apreende em leituras que são acrescidas as referências de inteligências; é através do que se explana nos textos que é dado a conhecer essa inteligência.
Na sociedade moderna, descontadas as referências de sorte ou de descuido, o processo de desenvolvimento pessoal passa pelo viés do intelecto. É preciso desenvolver a intelectualidade para um melhor preparo às vicissitudes que se aproximarem. E a intelectualidade é resultado das leituras – textuais ou não - que o sujeito efetua. As leituras realizadas no processo de apreensão e no de produção de conhecimento. Em sendo assim, aceitada essa premissa, a motivação deveria ficar mais fácil, já que ler e escrever resumem-se em uma necessidade básica.
Ao certo, o ato de ler e escrever é uma questão de atitude. A atitude é uma variável interna, a ser exercitada – o indivíduo toma uma atitude; não espera que ela venha de algum lugar. Na maioria das vezes, o indivíduo, apesar do que se expôs acima, não se motiva a tomar a atitude devida. No caso, então, é preciso que se investiguem os aspectos de motivação que levaria o sujeito a perceber a importância de ler e escrever. E é aqui, em minha opinião, que entra a responsabilidade da Escola, em apresentar situações e conteúdos que proporcionem novos e dinâmicos estímulos para que aquela atitude seja tomada positivamente.
No âmbito de sua personalidade institucional promotora das aprendizagens, a Escola há de ser o espaço ideal em que o universo das leituras e escritas seja desvelado como algo atraente, instigante, estimulante, acessível e transformador.