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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Anotações - Palavras e Imagens

Assisti a um filme, recentemente, que me fez pensar bastante sobre o trabalho pedagógico. Não exatamente por seu mote principal: o de querer discutir a importância das palavras ou das imagens no processo de evolução cultural. O que me chamou a atenção no filme "Palavras e Imagens" (Sony Pictures, 2013, com Clive Owen e Juliette Binoche) são as ações inspiradoras das personagens. Ele representa um professor de língua inglesa, de passado famoso; ela, uma professora de arte, cujo talento é notório. As ações se passam em uma escola americana de nível secundário. Se não viu nada sobre o filme e quer dar uma olhada no trailer, clique aqui.
A questão de dar importância a uma e outra linguagem (palavras ou imagens) é o pressuposto para que os professores protagonistas desencadeiem nos alunos o gosto por essa ou aquela referência. E o filme, em minha opinião, desenrola-se bem nesse pressuposto. E é possível ver a evolução dos alunos, que se veem obrigados a tomar uma ou outra posição, a partir de seu envolvimento nas motivações dos professores. Penso assim a Escola: um lugar de motivações e desafios, movido por paixões e pela busca de construção do conhecimento.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Para refletir - Sempre lutar


terça-feira, 28 de abril de 2015

Anotações - Saber e Não Saber

Um dos maiores problemas, quase sempre recorrente nas reflexões sobre as atuações docentes, diz respeito às questões sobre saber ou não saber algo. Peguei uma conversa, dias desses, sobre esse assunto. Professores que trabalham com crianças pequenas, nas séries iniciais do ensino fundamental (aqui no Brasil, refere-se às idades entre 6 e 9 anos, com algumas variações), estavam refletindo sobre essa questão ao discutirem o fato de não dominarem, completamente, alguns tópicos dos currículos gerais que precisavam trabalhar em suas salas.
As opiniões ficaram divididas, resumidamente em dois pontos: alguns professores diziam, claramente, que, quando não sabiam algo, preferiam passar por cima (em outras palavras, fingir que sabiam...); outros, na minha opinião mais comprometidos (desculpem-me aqueles primeiros), resumiam a discussão em uma máxima interessante: "Quando não sabemos alguma coisa, temos que procurar saber...".
Bom, a ideia de saber e não saber algo é pensamento filosófico dos bons e que já existe há muito tempo. Não é premissa, em lugar algum do mundo do conhecimento, que saibamos tudo (como já nos ensinou Sócrates. O filósofo.). Aliás, a consciência de não saber algo é exatamente o que nos move à busca do conhecimento, despertando-nos a inquietude de querer saber. É assim que deveria ser.
Por uma dessas razões que se respaldam na variável da identidade docente - a que preconiza ser o professor aquele que transmite o saber -, não é bom que o professor admita não saber algo, justamente para não ferir essa identidade... Desnecessário dizer que eu não defendo essa máxima. Fico com os filósofos que nos ensinaram sobre a vontade de aprender: o que eu sei, eu socializo; o que eu não sei, eu procuro saber.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Educador como Referência

No processo de desenvolvimento pessoal, buscamos sempre algumas referências para nos moldar os caminhos em nossa evolução. A propósito das variáveis educacionais, via de regra tomamos como modelo algum professor - ou alguns. Suas atitudes, a forma como conduz as aulas, a maneira como resolve os inevitáveis conflitos, sua postura frente às variáveis de sua disciplina, sua relação com os outros professores e com outros agentes da Escola, as atitudes e respeito frente à aquisição de outros saberes... enfim, todas as dimensões que perfazem as características dos professores servem como espelho na formação dos alunos.
Ao eleger, consciente ou inconscientemente, o professor (ou professores) que lhe servirá de inspiração para a sua evolução (social, pessoal, profissional, intelectual etc), o aluno passa a copiar, também consciente ou inconscientemente, os pressupostos daquele professor. E o processo é tão sério, que essa modelagem vai acompanhar o aluno pela vida afora, durante seu desenvolvimento. Claro que não é só relacionado aos professores; na verdade, a modelagem vai se referir a vários outros adultos com quem a pessoa for se relacionando ao longo de seus caminhos (pais, chefes e amigos também se incluem nessa lista).
O que é importante para os professores é que, ao tomarem consciência desse processo, possivelmente passem a cuidar, também, da sua referência subjetiva modelar. Quando eu sei que alguém pode querer se espelhar em mim, posso, no exercício da responsabilidade que minha profissão exige, aprimorar essa ou aquela minha referência positiva, mesmo que ela não vá influenciar ninguém.
Quando falamos de alguém inspirador ou de algum líder que influenciou seguidores, estamos falando, exatamente, dessa questão. As atitudes e posturas de uns influenciam as posturas e atitudes de outros. Ao Educador, exatamente por seu trabalho - o de propiciar processos de desenvolvimento do ser humano - sobra-lhe uma responsabilidade muito grande, que transcende os limites técnicos de trabalho com sua disciplina, a de supostamente servir de espelho para a formação de um caráter e de uma inteligência.
Então, que saibamos lidar com essa responsabilidade, não como um fardo, mas como um complemento de dimensão altamente significativa da profissão de ser Educador.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Anotações - A borboleta de asas de fogo do Lobato

No último dia 18, sábado, comemorou-se o dia de Monteiro Lobato. Para homenagear o dia, destaquei um trecho seu, retirado de uma das inúmeras cartas que trocou com o amigo Godofredo Rangel por mais de quarenta anos: "Somos vítimas de um destino, Rangel. Nascemos para perseguir a borboleta de asas de fogo - se a não pegarmos, seremos infelizes; e se a pegarmos, lá se nos queimam as mãos.".
A ideia de ter um objetivo é parte inerente do processo de desenvolvimento humano; todos temos um destino nessa rota de evolução - é preciso, além de reconhecê-lo, pontuá-lo e construir caminhos que nos levem àquele alvo. O problema é que nos descortinam dois rumos interessantes: o de sermos infelizes, caso não alcancemos o alvo; ou o do sacrifício para alcançá-lo. E aqui, dissolvem-se as ilusões das facilidades: nunca é fácil alcançar um objetivo - será exigido de nós um sem-número de valentias e coragens para vencer as intempéries que aparecerão pelo caminho, inclusive as que dizem respeito, justamente, às possibilidades de querermos desistir da meta.
Queimar as mãos, representação metafórica da transposição das nossas dores (como no poema do Fernando Pessoa, já visto aqui), vai ser a marca de o quanto avançamos em nossa evolução. Ou, então, seremos muito infelizes...

sábado, 18 de abril de 2015

Monteiro Lobato

No dia 18 de abril de 1882, nascia Monteiro Lobato. Controverso e nem sempre compreendido, Lobato representou uma mudança importantíssima para diversas referências nacionais. A principal delas está na literatura: foi um importante editor e incentivador das letras. Na Literatura Infantil, foi o divisor de águas para uma verdadeira literatura para crianças e jovens, com o seu universo do Sítio do Picapau Amarelo.
Na frase, nesta imagem, um de seus pensamentos interessantes - dirigido a Godofredo Rangel, seu grande amigo, com quem trocaria correspondências por mais de 40 anos (veja "A Barca de Gleyre"), Lobato já se mostraria com sua personalidade marcante - sua opção nunca foi a de ser infeliz, mas suas mãos queimaram por muitas vezes...

Minhas homenagens a esse brasileiro de marca maior!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Anotações - Fácil e Difícil

Dias desses, peguei uma conversa que achei bastante interessante. Dois jovens diziam sobre vários assuntos e um deles, a certa altura, falou do interesse que tinha de estudar algo. E aí, emendou, "mas precisa ser algo fácil; não quero estudar nada que seja difícil...".
A ideia de apegar-se ao que é fácil está no inconsciente coletivo dos aspectos culturais dos povos, já que o difícil guarda em si referências de ser trabalhoso e, por assim dizer, exigir mais atenção, mais cuidado e mais dedicação. Mas imaginei que relacionado aos estudos não cabe, exatamente, essa dicotomia do fácil/difícil. Primeiro, que tudo o que se refere aos estudos está relacionado aos processos de aprendizagem. Queremos aprender alguma coisa, pronto. Os estudos são o caminho natural para se obter esse aprender.
Em sendo assim, o que chamamos de estudo refere-se a um conjunto de estratégias e de movimentos que subsidiam a busca da construção de conhecimento. Nessa variável de estratégias e de movimentos, deveremos perceber algumas facilidades e dificuldades, processos naturais de quem busca saber algo. Teremos algumas facilidades e teremos algumas dificuldades, nada é diferente disso. Nosso propósito é saber lidar com as facilidades e dificuldades, já que cada uma dessa referências demandam um outro conjunto de estratégias e movimentos: ao que é fácil, eu destino certa dose de energia e de tempo; ao que é difícil, eu reservo mais tempo e energia.
Se eu pudesse intrometer-me naquela conversa dos dois jovens, eu diria algo sobre essa reserva de energia e tempo que destinamos ao que consideramos fácil ou ao que consideramos difícil... Mas aí já é outra história.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Anotações - Tente Outra Vez

Há uma canção do saudoso Raul Seixas que nos deixa um mote interessante para refletirmos sobre a capacidade de sermos persistentes e determinados a alcançar algo. É a canção "Tente outra vez", que dá título à sessão de hoje no blog. Não sei se você a conhece, mas é possível ver letra e música ao clicar aqui.
A ideia de sermos determinados é o maior pressuposto do desenvolvimento humano, já que a busca de evolução - seja em que nível for - exige de nós uma postura de enfrentamento ao que entendemos como parâmetros do que buscamos. Na maior parte das vezes, até como já foi dito aqui mesmo, até queremos chegar ao objetivo, mas temos um senso curioso que nos impede de nos esforçar para a chegada a esse objetivo - ao sinal da primeira grande dificuldade, grande parte de nós esmorece e nos enfraquecemos a continuar a empreitada. Essa descontinuidade das nossas metas revela o problema da falta de persistência.
Na canção, várias das chamadas de ação que o mestre Raul nos legou parece exatamente fixar-se nessa variável da persistência. "Levante a sua mão sedenta", indica-nos a letra, "e recomece a andar...". E se tudo não parecer convincente, na mesma parte da música, vem uma grande lição: "Não pense que a cabeça aguenta se você parar.". Sigamos em frente!

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Conceituando a Educação

Sempre acreditei ser da máxima importância o profissional estabelecer um conceito daquilo a que se propõe fazer. Independente da sua área de atuação, seja ela lógica ou humanística. É imprescindível saber o que se pretende, onde se quer chegar, mensurar os obstáculos, estabelecer alternativas (de desvios ou de enfrentamentos), quantificar metas e comprometer-se com elas, conhecer a história daquilo a que se compromete, saber ler as variáveis que compõem o seu campo de trabalho... E tudo o mais que se apresentar que for relacionado ao seu objeto de trabalho.
É exatamente a busca de apontamentos para aquelas e outras questões que, decerto, surgirão, que definirão um conceito para o seu desenvolvimento profissional.
            Em Educação, não poderia ser diferente. Até hoje, onde quer que eu passe e experimente “sensações pedagógicas”, fico pensando: “Como será que fulano de tal definiria a Educação?”.
E você, que de repente franziu a testa, afinal, como conceituaria essa coisa que nos move, diuturnamente, ideologicamente ou não, aos recônditos mais extremados, cheios de livros nas mãos e de revoluções na cabeça, o casaco marcado pelo pó de giz, para ensinar aqueles que devem aprender?
Se possível, desfaça-se daquelas definições teóricas, decoradas para passar na prova de História da Educação. Quer dizer, nada contra tais definições teóricas. O problema é que elas, de uma maneira envolvente, acabaram nos aprisionando em uma camisa de força. E esse foi o mal. Destituíram-nos de voz e de condições ativas, deixando-nos a repetir, por vezes sem mesmo compreendê-las, fórmulas prontas, responsáveis até, mas quase sempre impróprias às realidades com que nos defrontamos. Viramos bons teóricos, entretanto sem muito vínculo a uma prática afirmativa.
Então, a questão se faz assim: “Com suas palavras...” - parece enunciado de avaliação, não é? – “... por um viés que contemple a sua prática e pensando em uma realidade contextual, que você conhece ou deveria conhecer, como estabeleceria um conceito para Educação?”.
Para não pensar que sou injusto com os estabelecimentos teóricos, recordo-me de um texto que li, há tempos, do Luís Camargo (um arte-educador, não sei se você conhece. É fácil achar várias referências de seus pensamentos), em que lá pelas tantas, ele proclama: “Educação é o processo de desenvolvimento do ser humano”. Parece-me, se você perdoar a prepotência, um bom começo para buscarmos o tal conceito a que me refiro.
Antes de qualquer coisa, vou destacar uma obviedade. Repare que, no conceito apresentado, o objeto final do nosso empenho é o ser humano. Apesar de haver neste destaque mais do que uma obviedade, tenho notado atitudes, sistemas, metodologias que parecem ter sido criadas esquecendo-se exatamente de que é o ser humano o alvo da nossa energia. O principal deles é a tentativa sempre constante de padronização dos alunos. Padroniza-se em uma sala, em uma série, em um escalonamento quantitativo de avaliação, em um modelo de comportamento e de posturas... Já nessa referência de padronização, parece-me claro o esquecimento do que é o ser humano. Uma instituição inconstante, múltipla de formação, e de características diferenciadas, a quem não cabe processos de pasteurização; e lá estamos nós determinando essa ou aquela conformidade segundo critérios que julgamos certos e imperiosos. Lembro-me de ter visto, perdidas as contas, professores sacramentando definições a um ou outro aluno, pela simples razão daquele não atender a um determinado padrão de comportamento atribuído como condizente ao que se espera do estudante. E segue-se com o dito processo pedagógico, na crença irresponsável de que se está fazendo Educação.
Quer um outro dado para refletir? Seja franco, quantas vezes você mandou para Diretoria, Coordenação ou qualquer outra instituição assemelhada em sua Escola aquele aluno quieto, que mal se mexia na carteira, mas que só tirava boas notas? Aposto que você deve ter se perguntado “Ora, se ele tirava boas notas, por que cargas d’água eu o mandaria para a Diretoria?”. Veja aí se não cometemos mais erros. Não importa muito o que fazia aquele aluno ficar quieto, não se mexer, às vezes até nem sabíamos como era o tom de sua voz, se suas notas eram as melhores da classe. Pensamos em rótulos: alunos “problemáticos” são aqueles que tiram notas ruins. E esses, sim, devem visitar o Diretor para uma “conversinha”. Nunca quisemos enxergar que, mesmo aqueles quietinhos, também precisavam da tal “conversinha” – precisávamos saber o que se passava com eles, o que os angustiava, porque ficavam assim... Puxe na memória. Lembra-se de que aqueles alunos, normalmente, eram os mais tristes de toda a classe? Ora, se estivéssemos preocupados com o processo de humanização embutido no viés pedagógico, decerto eles seriam também alvo de nossa preocupação. Mas não, posso até parecer injusto, mas duvido muito de que naquele momento estávamos preocupados com a ideia de que lidamos com seres humanos. Acho que estávamos mais interessados em nos livrar de um problema, ou melhor, em não acrescentar mais problemas à nossa já imensa lista do que fazer.
Não podemos perder de vista a ideia de formarmos um conceito, não é? Depois de chamarmos a atenção para o objeto do nosso trabalho, vale pensar em outro fragmento do dito do Luís Camargo: desenvolvimento. Percebeu mais uma obviedade? Nossa missão é promover o desenvolvimento do ser humano. E a questão fica mais simples: estamos realmente envidando esforços para que se manifeste o tal desenvolvimento?
A questão me incomoda porque, mais uma vez, observa-se certa inconsistência nas práticas e pensamentos. Que desenvolvimento estamos promovendo? A primeira inquietude vem de uma contradição bastante comum nos espaços escolares. Se tiver tempo e paciência, faça uma enquete para confirmar minha exposição. Pergunte a alguns professores qual o objetivo do trabalho pedagógico. Prometo-lhe um doce se grande parte das respostas não for algo do tipo: “o objetivo é formar alunos críticos, pensantes, capazes de elaborar o seu próprio aprender etc etc etc”. Corta para a prática. Lá na sala de aula, o aluno, desavisado desse princípio – mas, intuitivamente, desejoso dele – resolve fazer um comentário, à sua maneira, reconheço, mas perfeitamente atinente ao que se está expondo, e ouve alguma coisa parecida com “eu já não falei para não interromper a aula?”; ou, ainda, mal maior, em um exercício de verificação de aprendizagem outro aluno até descobre uma forma alternativa de se chegar ao mesmo resultado apontado pelo professor no gabarito, mas descobre também que, se não fizer como o professor ensinou, a resposta está errada.
Percebeu a contradição? De um lado, queremos formar alunos críticos e pensantes; de outro, não deixamos os alunos serem pensantes e críticos. Tínhamos que pensar em desenvolvimento – criar condições para existir o tal desenvolvimento, promover alternativas, estabelecer estratégias, rever planos, modificar posturas e atitudes, enxergar horizontes de atuação em que essa variável seja base do trabalho.
Não sei se você já viu isso nas suas andanças, mas existem professores que punem moralmente os alunos que não se coadunam com suas propostas de trabalho. Sabe aquela coisa de humilhar o aluno, ou de criar situações de constrangimento, muito comuns nos primórdios da Educação? Pois é, ainda existem hoje em dia, e talvez sejam até mais frequentes do que imaginamos. Decerto, esses mesmos professores responderiam à sua hipotética enquete que estão fazendo de tudo para “formar pessoas melhores, alunos mais conscientes”.
Sabe o que é mais curioso? Eles acreditam, realmente, que estão contribuindo para o desenvolvimento dos alunos. Na maior das vezes, não é má fé, nem desinformação. Há um dado cultural que chega a ser interessante estudar. Esse mesmo professor também foi formado acreditando na estratégia da humilhação como pressuposto para se alcançar o desenvolvimento. Quer dizer, acredita-se que se o aluno for desafiado em sua integridade, ele cria mecanismos de defesa e de segurança, o que, em certa medida, é variável de desenvolvimento. Pode até ser, mas não é uma teoria confiável, já que os efeitos colaterais, via de regra, são desastrosos. Sabe aquele sujeito que não dança nada só porque quando participou de uma aula de dança alguém fez um comentário jocoso sobre o seu jeito de dançar? Pois é, a comparação é pertinente. Jamais teremos ideia de o quanto estaremos contribuindo para podar talentos...
Outra coisa, faz-se ainda preciso aprofundar o conceito de desenvolvimento. Parece que o associamos apenas à referência intelectual. Entretanto, o indivíduo precisa experimentar variáveis diversas de desenvolvimento: sócio-afetivo, relacional, comportamental, profissional. E é preciso que admitamos: às vezes, pouco contribuímos para o desenvolvimento intelectual, o que se dirá em relação às outras variáveis? Penso que grande parte do nosso esforço deveria ser voltada a essa problemática. Não basta ter alunos inteligentes, é preciso pensar neles como uma instituição global e buscar alternativas para que a convivência nos espaços escolares pressuponha uma garantia de que outras áreas também sejam desenvolvidas. Até imagino que você deva estar pensando no quanto eu estou maluco. “Se mal temos tempo para cumprir os programas, como vamos analisar o aluno nessas referências todas?”.
Confesso-lhe que fico preocupado com esse posicionamento dos professores em relação ao cumprimento dos programas. Penso em Paulo Freire e na sua metáfora contida na expressão “Educação Bancária” – acho que você já deve ter lido algo a respeito; aquela ideia de depositarmos a qualquer custo conhecimento na cabeça dos alunos. Perceba, por favor, que não estou aqui tentando decifrar enigmas da Educação. A minha fala tem que ser compreendida a partir de um distanciamento, através do qual possamos ter uma ideia maior do problema. Ora, será que o cumprimento normatizado dos programas é um ganho? Novamente, vem-me a imagem de que nos distanciamos do que possa ser associado ao ser humano. O cumprimento do programa parece uma atitude robotizada de um sistema que esquece níveis de complexidade da constituição dos alunos – até mesmo da nossa. Assim, se alcançarmos uma evolução sobre a discussão dos temas que se relacionam com os programas de ensino, decerto estaremos criando espaços para que o conceito de tempo nas atividades pedagógicas propicie-nos novos posicionamentos e posturas na elaboração de propostas que visem ao desenvolvimento global do aluno.
Quase ia me esquecendo. É preciso voltar à frase do Luís Camargo, pois há ainda um componente interessante lá: a palavra “processo”.
Quando dizemos que Educação é “o processo de desenvolvimento do ser humano”, deveríamos nos convencer de que há algo aí inconcluso, de natureza processual, não acabada. E não é curioso que, via de regra, enxergamos o nosso trabalho como um produto? Depois que o aluno aprender determinado conceito – verificado por intermédio de um sistema de avaliação ineficiente -, logo já temos outro conceito para que ele aprenda; no final do ano, termina-se um ciclo, para ser recomeçado no ano seguinte; e assim vai. É como se tivéssemos em mãos pequenos produtos, com os quais elaboramos o nosso plano de trabalho. Quando temos a ideia de processo, ela dura o tempo estabelecido naquele plano: uma aula, um mês, um bimestre, um trimestre. E, com raras exceções, esse processo nem é analisado quando se faz uma leitura avaliativa do aluno.
É a compreensão desse termo “processo”, que faz parte, naturalmente, do desenvolvimento humano que nos propiciará, espero, uma reflexão maior do nosso comportamento, já que ele traz uma realidade que alguns professores nem gostam de pensar. A de que, a bem da verdade, os alunos nem precisam muito de nós para o seu amadurecimento. A nossa permanência na vida deles tem uma importância muito curta – é claro que alguns professores tornam essa permanência inesquecível, fazendo-se verdadeiramente importantes. Os alunos vão receber influências de outras instituições: a família, os amigos, a sociedade, o trabalho, as mídias, as convicções religiosas etc. E todas estas influências, somadas à nossa, constituirão o tal processo de desenvolvimento.
A ideia é que criemos uma consciência dos nossos limites. E, sobretudo, que aprendamos a conceituar o nosso trabalho. Por que princípios eu vou caminhar? Quais são as bases que constituem o meu método? Quando se estabelecem algumas diretrizes que fundamentam aquilo que se está fazendo, no mínimo há uma consciência profissional responsável que fornecerá respaldo ao que se pretende.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Anotações - Prestar atenção

Estar atento aos sinais que nos chegam das mais diversas fontes, sejam referências de aprendizagens ou não, é um dos maiores pressupostos de desenvolvimento pessoal. E é preciso estar muito atento a esses sinais, até mesmo para filtrar se é significativo ou não. Aliás, de uma forma extremamente sintética, está aí o sistema de construção do conhecimento: receber os sinais (as informações), filtra-las e estabelecer uma relação de significado com o que eles representam (o conhecimento).
Para que esse sistema funcione de forma positiva, é preciso que nos entendamos como uma espécie de antena que capte tudo o que está ao nosso redor. Nessa metáfora, é preciso estarmos despertos a todas as referências externas que nos alcançam.
E já que falei de metáfora, penso, no simbolismo de nossas ações e atitudes, que nosso comportamento, aos poucos, encaminha-se, justamente, para o oposto dessa necessidade de estarmos despertos - cotidianamente, distraímo-nos com uma série de variáveis que a tecnologia nos impingiu, à guisa de entretenimento, de conforto ou da dita necessidade profissional. Veja, por exemplo, a utilização dos aparelhos celulares em situações e momentos os mais variados: nas conduções, nas refeições, nas relações familiares, nas relações sociais etc estamos sempre ou com fones de ouvidos nos deleitando com as músicas preferidas, ou checando postagens nas redes sociais, ou conferindo aquele e-mail importantíssimo que nos exige uma pronta resposta, ou navegando em paragens que nem sempre sabemos bem onde estamos... A despeito da importância que todas essas situações representam, o simbolismo que mais me chama a atenção é o do afastamento do que é real: afastamo-nos do aviso real que nos chegam pelos auto falantes das estações do trem e do metrô; afastamo-nos do pedido real e sincero de desculpas de alguém que, sem querer, esbarrou-se em nós; afastamo-nos dos reais sinais de aproximação humana; ou, ao menos, afastamo-nos das imagens fugidias e reais de deleites que nos chegam por um movimento gracioso de algo. Tornamo-nos cegos e surdos do que está ao nosso redor.
Nessa cegueira e nessa surdez, ainda valendo-me de uma referência simbólica, fechamo-nos aos sinais que poderiam nos levar a algum movimento de aprendizagem.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Anotações - As fantasias das crianças

Voltando ao universo simbólico das variáveis fantásticas e mágicas que tangenciam o universo infantil, pensei no filme "Imagine Só", com o Eddie Murphy (Paramount Pictures, 2009 - veja o trailer do filme aqui). No enredo, Eddie Murphy faz o pai extremamente envolvido com o seu trabalho exato e lógico, sem dar muita importância ao mundo fantástico e lúdico de sua filha pequena. No decorrer do filme, ele vai perceber que a salvação para os seus problemas profissionais está exatamente em dar vazão ao imaginário que a filha vai lhe ensinar a ver.
Nessa premissa, está a referência clássica do adulto que se envolve demasiadamente com as causas lógicas (quase sempre representadas pelo trabalho/negócio - vale destacar que na palavra "negócio", a negação do ócio, já está implícita a importância que os elementos simbólicos do processo de desenvolvimento atribuem à variável racional).
Assim, o adulto racional precisa ser sério e responsável para concluir sua evolução social e profissional, preterindo as relações lúdicas e de fantasias. Nos filmes que abordam essa questão, quase sempre há uma criança - filha daquela pessoa séria - que é relegada, a princípio. Até que se descubra sua verdadeira intenção como personagem da história.
Neste filme, e em quase todos do mesmo gênero, o que enxergamos é um rito de passagem necessário para o adulto possibilitar vir à tona sua criança interior. A filha do protagonista vai desenvolver um encaminhamento de ações a fazerem-no perceber o simbolismo do arquétipo da criança - aquela que desperta para a criatividade e imaginação - como variável absoluta da busca da felicidade.
A principal lição do filme é a de aprendermos a ouvir essa criança, que insiste, incansavelmente, a nos orientar para os caminhos do prazer, da alegria e do respeito à própria felicidade. Pense nisso.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O Desenvolvimento Pessoal - A Responsabilidade do Aluno


Explanadas algumas reflexões sobre as responsabilidades da Escola e da Família no processo de evolução pessoal, cabe pensarmos um pouco sobre a parcela do próprio aluno em seus caminhos de desenvolvimento. É preciso que pensemos, de saída, ser o próprio indivíduo o principal agente de encaminhamento de suas estratégias de aprendizagens. Não há trabalho em Educação, por melhor que seja desenvolvido, em que se resume sua positividade sem que haja uma parcela considerável de envolvimento por parte dos alunos.
O problema central nessa colocação é o de que, por uma boa parte de sua vida escolar, o aluno encontra-se em um estágio de imaturidade que bloqueia a compreensão do que se expôs acima. Por alguns anos que passa na Escola, o aluno não exercita a responsabilidade de ser agente atuante do seu processo de desenvolvimento. Essa situação vai exigir uma espécie de treinamento dessa dita responsabilidade. E é aqui que precisamos voltar às duas instâncias discutidas anteriormente: a Escola e a Família.
Tanto uma quanto outra vão precisar perceber que o exercício da responsabilidade está atrelado ao exercício da autonomia. Família e Escola devem encontrar caminhos por onde trilhar a citada autonomia, como treino de desenvolvimento, não só para os aspectos intelectuais e científicos, mas também para as variáveis dos diversos relacionamentos por que vai passar o aluno.
Parece que deslocamos o sentido da discussão de responsabilidade, tirando-a do aluno e repassando-a para a família e escola, mas não há muito jeito, não. Em certo momento de seu desenvolvimento geral, o aluno não se encontra em estágio suficiente de maturidade que o permita embarcar sozinho em seus processos. Nesse momento, o que quer que ele experimente em termos de aprendizagem para essa responsabilidade é o que vai determinar o quanto ele vai envolver-se em tempos futuros.
Se esse momento tiver sido positivo, aí virão as referências de cobranças de determinação e de envolvimento, por que devem nortear-se os caminhos de aprendizagens do aluno. Determinação e envolvimento serão os pressupostos fundamentais da responsabilidade de quem quer aprender algo. O aluno deve entender que, somado aos esforços da família e da escola, precisa contribuir com sua vontade de aprender algo. E que, enquanto não puder conduzir-se tão somente pelas especificidades do que quer aprender, terá que perceber a importância dos aspectos gerais dos saberes - cabe à Escola e à Família deixar claro para ele o quão essa generalidade poderá contribuir para sua evolução (pessoal, social, profissional etc.).
Quando compreende sua responsabilidade - tão bem exercitada nos tempos de imaturidade - nas variáveis de aprendizagem, o aluno passa e enxergar por uma ótica mais positiva e transforma-se em colaborador das estratégias de evolução.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Anotações - Estabelecimento de metas e objetivos

Pensei na história da Alice e uma passagem simbólica sobre a ideia de o quanto deixamos de estabelecer metas e objetivos às nossas intenções de vida. O estabelecimento de metas e objetivos serão os alicerces fundamentais para a realização de um planejamento mais eficaz. É preciso que se diga, em complemento à reflexão, de o quanto nos perdemos nos caminhos em que buscamos nossas realizações. Um dos fatores que explicam esse tema é, justamente, porque não sabemos onde queremos chegar.
Na história de Alice, quando ela ingressa ao país das maravilhas, sem saber exatamente onde está, nem onde quer chegar, e encontra o Gato - que fica em parte invisível, não sei se você lembra -, resolve, justamente, questioná-lo sobre os caminhos a seguir. Diante das indefinições e imprecisões da menina, o Gato responde a já tão conhecida frase: "Se você não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve...". E como é sério isso: quando não se sabe o que se quer, qualquer caminho pode ser seguido.
Na referência de desenvolvimento humano, temos que ter clara a definição de metas e objetivos para os nossos propósitos. É essa definição que vai nos ajudar a trilhar os caminhos melhores e pertinentes a nossa evolução.

(Alice's Adventures in Wonderland - Illustrationen: John Tenniel)