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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Anotações - Um pouco mais de crítica à lição de casa

Falei, aqui, na semana passada de minhas críticas à lição de casa, prática adotada por alguns professores. E resolvi acrescentar mais algumas reflexões, espero que vocês não se importem com minhas divagações contrárias a essa prática.
Minha filha está no primeiro ano do ensino médio e acompanho seu sofrimento na realização das ditas tarefas... E é sofrimento mesmo! Mas, além do sofrimento, o que mais me chama a atenção é a percepção da perda de tempo... da perda de tempo e da desmotivação. Minha filha, que é até uma boa aluna, verbaliza bem essa questão da falta de significado em realizar aquela atividade, o que, na minha opinião, cria um aspecto desmotivador para a realização daquilo. Em minha última observação, ela estava realizando uma lição de casa, que se desdobrava no preenchimento de algo em torno de 7, 8 páginas de papel almaço, que seriam entregues à professora, à guisa de trabalho a ser avaliado... Ufa, só de imaginar o trabalho que a professora vai ter em corrigir esse trabalho, fico pensando em um outro trabalho, talvez do mesmo quilate, mas que poderia trazer resultados mais significativos: a professora, em vez de estimular as realizações individuais e desestimuladoras das lições de casa, juntaria a turma na sala de aula e criaria situações de debates reflexivos em torno de cada questão... ou de questões previamente selecionadas. Consegue visualizar?
Seria bom que os educadores percebessem o valor dessa prática pedagógica dos debates reflexivos, em que não interessam muito os acertos e erros, mas a construção do pensamento nos questionamentos importantes. Que valorizaria - e muito! - o papel do professor como mediador... Coisa que nunca veremos na prática das lições de casa.



terça-feira, 25 de agosto de 2015

Anotações - O analfabetismo social

Quando usei o termo, aqui, de passagem em uma publicação, pensei que ainda há muito o que se falar sobre esse conceito, o do analfabetismo social. A matéria, de onde apreendi a ideia, é uma entrevista realizada com o professor Carlos Neto, também investigador, da Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, Portugal. Se quiserem dar uma olhada na entrevista, clique aqui.
O conceito é bem entendido por aqui - talvez seja uma variável global -, em que estamos nos afastando das relações humanas, sociais. Os aparatos tecnológicos - de que nos valemos para trazer mais conforto e agilidade aos processos humanos - são os grande vilões da história. Em princípio, pensei que seria um problema que mais afetasse os jovens, detentores das maiores habilidades em se comunicarem melhor por smartphones e quiçás, em detrimento aos convívios humanos e sociais, que tão bem nos fazem. O professor Robinson Gessoni, destacado especialista em aprendizagens, mostrou-me que o problema é maior; em um comentário a uma das publicações por aqui, o professor Gessoni abordou a questão preocupante do fator de analfabetismo social observada por ele nos ambientes corporativos, por que trafega ministrando suas palestras e cursos de alto interesse.
Fato é que, nós, seres humanos, estamos mais propensos a realizar os propósitos de comunicações que se apoiem em instâncias tecnológicas (telefone, e-mail, aparelhos celulares, redes sociais etc.). Não obstante os facilitadores que essas instâncias nos oferecem, o efeito colateral parece cruel: não conseguimos mais nos relacionar, no que diz respeito aos aspectos da comunicação, de uma maneira direta e objetiva, buscando no olhar do nosso interlocutor as variações de entendimento à mensagem. Em outras palavras, trocar dois dedos de prosa com outro ser humano passou a ser um périplo de difícil realização (ou porque não estamos disponíveis para isso; ou porque o outro não está disponível, também; ou porque não conseguimos mais deter o código das comunicações presenciais...).
Vamos voltar a esse tema, qualquer hora, pois o problema é demasiado grande para refletir só um pouquinho.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Anotações - Aprendizagens

Fiquei um tempo reparando na mãe, com seu bebê de colo, no vagão do trem. A criança, curiosa aos estímulos que o externo lhe propiciava, exigia um pouco da mãe. "Ali é uma placa"... "Vovô"... "Caminhão"... "Carros"... "Azul"... "Blusa da mamãe"... "Ônibus"..., ia dizendo ela ao que estivesse na direção dos olhos saltitantes e questionadores do menino. E a mãe ia denominando as coisas não só atendendo a curiosidade do pequeno, mas como se ela também absorvesse aquelas denominações pela primeira vez. Aí, tanto a criança quanto a mãe divertiam-se nesse jogo. E reinava uma paciência impressionante - se a criança não entendia muito bem a denominação de um referente qualquer, seus olhinhos tratavam de explicitar o que ainda a fala não podia atender; a mãe repetia, mudando a entonação - ou enfatizando uma letra ou uma sílaba, com a intenção de deixar tudo mais claro... Era um jogo interessante de se observar.
Pensei no princípio filosófico da aprendizagem: é preciso que exista alguém dotado de um saber estabelecido por algum princípio (idade, escolaridade, especificidade técnica etc) e outro alguém com uma curiosidade de aprender aquele saber - ao primeiro, cabe a definição de estratégias e de métodos que tornem significativos esses saberes; ao segundo, cabe a curiosidade e a vontade de estabelecer sentidos ao que é transmitido. Sobretudo, é necessário que entre um e outro haja o estabelecimento de um vínculo consolidado, que permita leituras correspondentes aos desejos recíprocos - assim, um percebe e entende os sinais do outro.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O Lúdico na Eduação - Brincando de Dobrar Papel

O  universo infantil está pontilhado de referências lúdicas. E não podia ser diferente: é através de sua vivência nos jogos de representação, a que costumeiramente chamamos apenas de brincadeira, que a criança experimenta situações, conflitos e superação de desafios, que vão proporcionar, além do próprio prazer de brincar, o seu pleno desenvolvimento.
É nesse ponto que se apoiam as reflexões que relacionam o lúdico às operações pedagógicas: os sistemas em Educação podem (e devem!) ser analisados a partir do pressuposto do estabelecimento de variáveis que promovam exatamente o desenvolvimento do ser humano.
E é com base nessa relação que a ludicidade, já há algum tempo, deixou de apenas circunscrever seu perímetro de estudo, unicamente, aos aspectos do jogo e do brincar. As leituras dos referenciais lúdicos têm sido acompanhadas, via de regra, de implicações educacionais. É no encaminhamento das reflexões acerca do brincar como variável pedagógica que os educadores, preocupados com dinâmicas mais significativas, vão buscar novos olhares sobre sua prática.
Os educadores que trabalham com as crianças pequenas, de 0 a 6 anos, têm refletido muito sobre a máxima que caracteriza o brincar como atividade em que se pressupõe uma relação propícia ao processo de desenvolvimento integral: sócio-afetivo-intelecto-emocional.
Na prática, é preciso estarmos atentos às possibilidades de redimensionamento das estratégias e dos materiais que temos à mão para o planejamento de atividades que venham contribuir, efetivamente, com essa operacionalização.
Sob essa ótica, as atividades que relacionam o prazer de ouvir histórias com os benefícios da prática de dobrar papel podem ser altamente positivas. Ilustro, aqui, com o que pode ser pensado como um sistema: a partir da escolha de um instrumento prático pertinente a brincadeiras (no caso, o papel e as possibilidades de sua transformação pelo processo de dobrá-lo), desenvolvem-se vertentes de descobertas e/ou retomadas das cantigas infantis e das narrativas orais.
Para explicitar as possibilidades dessa atividade, pensemos em um modelo simples de dobradura, que todos devem conhecer – a casa. É uma figura bastante clássica. Pode-se partir de um estímulo qualquer para motivar o grupo a fazer a dobradura, ressaltando-se o respeito às potencialidades individuais. Com o modelo pronto, começam as brincadeiras.
Lembrando que já existe uma canção muito popular (“Era uma casa muito engraçada...”), o educador pode conduzir a brincadeira inicial justamente para reforçar o que há de engraçado nessa casa – não tem chão, não tem janela etc. -, com a intenção de tornar vivos os versos da música. Se a canção não surgir espontaneamente, nada impede de apresentá-la ao grupo, ensinando-lhe o que diz a letra.
Particularmente, eu gosto de fazer surgir do final da música uma história – como se uma brincadeira puxasse outra. Nesse caso, também valoração pessoal, prefiro a história do livro A Casa Sonolenta, já que o seu enredo permite um dinamismo que agrada muito o público infantil. Finda a história, a brincadeira toma outros rumos, permitindo algumas escolhas: recontar a história, inventar outra história com o tema da casa ou explorar as possibilidades intrínsecas na dobradura da casa: enfeitá-la, usá-la como aplicativo de colagens etc.
Assim como a casa, outras figuras de simples execução podem ser descobertas na prática da dobradura. E o encaminhamento até pode ser o mesmo descrito aqui; dobradura – cantiga – história – exploração após os contos. Evidentemente, o educador que pretender refletir essa prática vai desenvolver o seu próprio método de trabalho, valorizando este ou aquele momento, conforme especificidades de sua turma ou das características de seu espaço educativo.
O que deve ser ressaltado é a utilização de ferramentas, marcadamente lúdicas, para a compreensão do processo pedagógico. A linguagem da brincadeira, algumas vezes pejorativamente identificada com a ausência de seriedade, mostra-se, aqui, uma variável incomensurável de estabelecimento metodológico colaborativo no desenvolvimento da criança.
De um lado, a arte de contar histórias permite-nos adentrar nas reflexões sobre a aplicabilidade dos contos no contexto educativo, ao oferecerem à criança-ouvinte valores psicológicos e afetivos, presentes nas estruturas das narrativas orais clássicas, já amplamente discutidos nos estudos científicos a esse propósito. De outro, atividades de construção – como as transformações feitas em folhas de papel – abrem-nos outros campos de prospecção de estudos acerca dos princípios educativos que vão consolidar nossa prática.
 A referência maior, aqui, da ludicidade acompanhando esse processo de tomada de consciência só aprofunda a importância de compreender o brincar como manancial valoroso de análise do crescimento sócio-afetivo das crianças envolvidas em atividades que o tenham como estratégia.
A integração entre a arte de contar histórias e as dobraduras de papel, fundamento desta explanação, prevê um mecanismo bastante envolvente nos trabalhos positivos que se observam em Educação Infantil: a perfeita sintonia entre brinquedo (o instrumento) e brincadeira (o que se faz com o instrumento), como facilitadores de variáveis contributivas ao desenvolvimento das crianças. Caberá ao educador, em nome dos ideais mais acertados da Educação, além da constante análise de suas potencialidades, o estudo e a adoção de métodos que corroborem essa sintonia.


Esse post é uma síntese do artigo Brincando de Dobrar Papel Entre Cantigas e Contos. Para acessar o artigo na íntegra, clique aqui.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Resenha - Leituras


... O que tenho visto bastante, contrariando os ditos do dito senso comum, são jovens lendo... e lendo bastante! Em quase todos os lugares, há sempre quem saque de suas bolsas e mochilas um livro. Fico feliz de ver esse espetáculo, já que, por algum tempo, ouvi bastante a ladainha de que os jovens não leem. E que qualquer trabalho de leitura encontraria resistência nesta constatação indiscutível: os jovens não leem. O que, talvez, esses críticos tenham querido dizer é que os jovens não leem o que se quer que eles leiam. Isso lá é verdade, é honesto que se diga. Mas, de verdade, não vejo problema algum nisso.

O gosto apurado pela leitura, além de subjetivo, é algo que se aprende. É preciso que o leitor ganhe intimidade com as referências de leitura, para, daí, desenvolver o senso estético. Mesmo, assim, nada impede - e, outra vez, não há problemas nenhum nisso - que o tal senso estético seja direcionado para o que o leitor definir como sendo boa leitura. É preciso, aqui, separar o prazer de ler de ler por ofício.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Pedagogia da Mediação

O que fica bastante claro, nos dias de hoje, é que a maneira de ensinar e de aprender mudou bastante. Nem sempre nos damos conta disso, mas a verdade é que estamos diante de um fato: as mudanças tecnológicas, principalmente, e o livre acesso às informações influenciam - ou deveriam influenciar - as formas como aprendemos e como ensinamos. É até natural que tais mudanças repercutem mais significativamente nos alunos - como jovens, estão mais propensos aos referenciais da modernidade -, mas os professores não podem, e não devem, abster-se da reflexão desse processo.
O ensino e a aprendizagem, nos dias de hoje, estão referendados nas variáveis da Pedagogia da Mediação. O professor mediador compreende que a condução de uma aula obedece mais aos processos colaborativos do que a um caminho individualista de transmissão de saberes.
Nesse espaço de colaboração, todos são responsáveis pela construção do conhecimento. E o professor é um orientador de caminhos, aproveitando-se das inteligências advindas de sua turma e tecendo uma verdadeira colcha de retalhos (a aprendizagem).